A Seita explicada aos pobres de espírito
Seita. Só de ser mencionado, este pequeno termo causa arrepios na espinha aos cabeças-de-vento cujo vocabulário essencial tem como expoentes “man”, “bute”, e outras deturpações da língua portuguesa e vulgos coloquialismos. Nada de mal nisso, nós também os usamos. Mas temos noção de saber mais.
Seja como for, para aqueles em cuja cabeça abundam correntes de ar, o termo “seita” remeterá para um qualquer culto religioso ou esotérico de segunda, em que após uma séria e transcendente cerimónia de iniciação, somos convidados a participar em sessões de onanismo conjunto, seguido do pagamento Multibanco( também se aceitam Visa e Mastercard; Credit Lyonais é para os bichas), e finalizadas pelo suicídio ritual da praxe. Errado. “You are the weakest link, goodbye”!
O que é, afinal, uma “seita”? Para o cabeça-de-vento standart, a melhor ferramenta ainda é o dicionário. Neste caso o da Porto Editora. E o que nos diz este subvalorizado maná de palavras? Passo a transcrever, para não confundir mais o cabeça-de-abóbora (cabeça-de-abóbora é sinónimo de cabeça-de-vento, segundo o mesmo dicionário; era só para não me repetir que recorri a esta explicação repetindo a expressão “cabeça-de-vento” e introduzindo “cabeça-de-abóbora”):
“seita, [1] s. f. doutrina ou sistema que se afasta da crença geral; facção; reunião de pessoas que professam uma religião diversa do geralmente seguida; (pop.) partido; bando; grei. (Do lat. secta-, «id»). [2] s. f. (prov. minhoto) leiva que o ferro do vessadouro levanta. Cf. ceiva. (Do lat. sectu-, «cortado»).”
Somos, portanto, uma porção de terra atirada ao ar por uma espécie de arado que há para os lados do Minho. Não, na verdade este ponto 2 da explicação dada pelo dicionário não interessa muito para aqui. (Você percebeu isso, não percebeu, Sr. Cabeça-de-Vento?)
É pois o primeiro ponto que aqui vem ao caso. Está bem, aparece lá a palavra “religião”. Mas felizmente, essa expressão ainda não tem nenhuma conotação maligna. Eu pessoalmente gosto da ideia do afastamento da crença geral. Mas não presisamos de ficar por aqui. A definição remete-nos para a sua origem latina. “Latim? Qué isso?” – questiona o cabeça-de-vento. Não tenho tempo para lhe explicar. Voltarei ao elogio do Latim mais tarde. Para já, a definição. Aqui não há que enganar, vamos recorrer ao velho amigo, Francisco Torrinha:
“secta, ae [*sectus, outra forma de part. de sequor], f. 1. Séquito; partido; seita; escola (filosófica). 2. Princípios práticos; método; género de vida; modo de proceder.(...)”
As viagens que se fazem com os dicionários. Desde que comecei este artigo já aprendi três palavras novas. Mas voltando ao assunto... Seita, Mr. Meathead (este é o coloquialismo inglês para Cabeça-de-Vento/Cabeça-de-Abóbora, tão popularizado por esse grande americano Archie Bunker), como penso que terá ficado claro, não é pois uma agremiação de fanáticos sem mais nada para fazer. É muito simplesmente um grupo de conhecidos, que partilham entre si o direito à diferença, ao pensamento alternativo.
Tudo o que é invulgar deve ser discutido, tratado em grupo, decomposto, dissecado, sem medo de ser vulgarizado; não será por aí que se perde o seu encanto. O encanto do “ser diferente” perde-se com o seu abandono, não com a sua propagação. Por isso saíu a Seita da sua obscuridade, para a luz da opinião pública. Para semear a diferença, com a benção da isegoria, mesmo que isso implique disparatar a torto e a direito.

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