Inspirado pela publicação mensal “Maxmen”, decidi, como forma de dar a conhecer um pouco da Seita através de um dos seus membros, roubar descaradamente a ideia e o modelo da rubrica “Dicionário Crónico”, que sai da pena de João Pereira Coutinho. Com duas diferenças: em primeiro lugar, no meu, e ao contrário do original, estarão presentes de uma só vez as letras que compõem o alfabeto latino e germânico; depois, ao invés de “Dicionário Crónico” (não quero arriscar processos), o meu chamar-se-á “Dicionário Atónico”. Finalmente, fica, para já, por decidir se a publicação deste dicionário será regular, ou se o exemplar de hoje será publicação única. Vamos lá então...
Aborto – contrariamente a outros membros da Seita, não tenho posição definida neste tema. Queria só frisar isto: ouvi dizer que magoa, suja tudo, e pode provocar danos permanetes. Por outro lado, ter o puto dá um resultado semelhante. Pensem nisto...
Bíblia – o maior livro de Estórias alguma vez escrito, ultra-datado mas ainda campeão de vendas. Uma das razões para não gostar muito dele é o facto de o não ter escrito.
Coutinho, João Pereira – o inspirador deste dicionário é um personagem interessante. Obviamente dotado de inteligência e cultura muito acima da média, consegue emparelhar grandes ideias com os maiores disparates. E ainda estou para perceber aquela dos três cursos superiores em dois anos...
Drogas – a única que uso é a aspirina. As leves deviam ser legalizadas. Por sua vez, a política em relação às drogas duras podia seguir o exemplo exposto pelo Capitão Danko, encarnado pelo Governador da Califórnia no filme “Red Heat”: peguem nos toxicodependentes e nos traficantes e abatam-nos a todos.
Eco, Umberto – figura incontornável do panorama literário contemporâneo, atingiu nos últimos anos o topo das minhas preferências. E não só pelos romances. A sua obra critíca e ensaística são do melhor e mais acessível que há no mercado. Sabe, como ninguém, fazer descer os altos padrões da Cultura Erudita, quase até ao nível do Cabeça-de-Vento standart.
Futebol – os três grandes andam colados na frente, seguidos de perto por “outsiders”. A razão para tal, dizem os peritos, é a pobreza do seu jogo, que está a nivelar o campeonato por baixo. Se assim é, e os mesmos clubes continuam a fazer carreira na Europa do futebol, nem quero saber dos campeonatos lá fora...
Gil Vicente (o Teatro Académico, não o Dramaturgo) – estou zangado com esta instituição. Parece que a rebaldaria que se instalou entre o Teatro e a Câmara de Coimbra hipotecou o meu enriquecimento cultural lá para Março, com o possível cancelamento do Festival Internacional de Blues de Coimbra, que tanto sucesso teve nas suas duas primeiras edições. Se abdicassem de algum do lixo que apresentam, de certeza que poderiam pagar o Festival do ano passado e organizado o deste ano.
História – “Historia magistrae vitae”. Não creio ser preciso dizer mais nada.
Istambul – só aprovarei a entrada da Turquia na União Europeia quando o nome daquela cidade no Bósforo for outra vez, e para sempre, Constantinopla.
João – é o meu nome. E não gosto que me venham cá com estórias da sua origem hebraica. Não quero ter nenhuma ligação, por muito indirecta que seja, àqueles israelitas. O meu “João” vem do gaélico “Sean”, e mais nada.
Konigsberg, Allen – Woody Allen tem um filme novo. Para muitos é motivo de alegria, para outros, é mais um igual aos outros. Eu admiro Woody por causa disso. Muitos dos seus últimos filmes são repetições de temas, cenas, às vezes quase de diálogos já antes experimentados. Mas apesar disso continuam a ter efeito em quem o entende. E isso é merecedor de aplauso.
Latim – a compreensão da língua raiz dos dialectos mediterranicos poderia solucionar diversos problemas de estupidez social, alem da própria forma como é usada a Língua Portuguesa. De facto, saber a etimologia de muitas das palavras que compõem o dicionário de Português seria meio caminho andado para a compreensão da nossa própria forma de ser. Mas para tal seriam necessárias medidas que nenhum governo teria coragem de implementar. Como a leccionação obrigatória do latim (já nem digo do grego...) logo no 1ºCiclo do Ensino Básico.
Monarquia – a legitimidade do regime monárquico é um dos temas clássicos e mais acesos da Seita. Assim que todos os elementos do grupo começem a “postar”, este tema certamente virá à baila.
Nacionalismo – nunca vi exemplo mais claro de nacionalismo como no caricato Dr. Vladimir Pliassov, docente na FLUC. A maneira inconsciente como faz valer, de maneira tão sincera e emocional, os seus pontos de vista sobre as questões russas (não soviéticas), é absolutamente deliciosa. Como historiador amador, diverte-se a tentar provar a origem eslava de figuras como Homero ou o Rei Artur, ou então mostrando como os Antigos Egípcios foram à Rússia aprender a fazer pirâmides. Mas nem tudo é mau. Nunca nínguem me tinha explicado tão bem e tão honestamente a questão da Chechnya. É tudo uma questão de sobrevivência do mais forte. A Chechnya não tem cultura própria, não aparece em nenhum mapa antes dos anos 90 do séc. XX, e a sua população não é maior que noutras regiões russas. Se o Governo de Moscovo permitisse a sua independência, o efeito “bola de neve” entraria em cena, e a Rússia ficaria mais pequena que os seus “velhos amigos”, os polacos.
Olimpo – todos nós temos o nosso Olimpo. Todos temos ídolos que colocamos nos píncaros da nossa admiração, modelos a seguir, com feitos que se espera um dia igualar. Ou então simplesmente para admirar. Figuras superiores, mas que nada têm de místico. Não são omnipresentes. Nem sequer são imortas. São expressões de seres humanos de capacidades humanas, o que só torna bem mais justo o seu culto. Bem mais justo que o culto a uma divindade invisível.
Partidos (políticos) – há bem pouco tempo abandonei o meu apartidarismo, para me tornar verdadeiramente anti-partidário. Irrita-me a mania dos eleitores de votarem nas cores e não nas pessoas. Sobretudo num país onde não há diferença entre os dois partidos mais votados, e onde os partidos mais pequenos não têm grande relevância na condução do país.
Quixote, D. – A obra de Cervantes comemora 500 anos. Ouvi na rádio uma qualquer licenciada em literatura, a falar sobre a obrigatoriedade de ler esta obra. Eu ainda não o fiz, e tão brevemente não o farei. Se por um lado sou apologista de ler as obras na sua língua original, o meu nacionalismo impede-me de ler castelhano. O que é mau. A única solução é acreditar em Eco, lendo a versão inglesa, já que essa, de Bacon, é que teria sido a original, sendo Miguel Cervantes o seu tradutor para castelhano.
Revolução Industrial – este processo, que dura desde meados do séc. XVIII, e que anda intrínsecamente ligado ao termo “progresso”, é um dos acontecimentos históricos mais marcantes desde a descoberta do fogo. E deixa bem marcada a sua influência na sociedade actual. Foi a revolução industrial, que já em meados do séc. XIX, deu à luz o Capitalismo e o Socialismo. As terríveis condições do parto fizeram com que estes dois filhos-da-puta nascecem de costas voltadas, para nunca mais se encontrarem.
Salazar – há uns meses, enquanto andava na rua, passou por mim um velho maltrapilho, e de sanidade mental questionável, que cantarolava “Viva Salazar, Viva Salazar!/Estes não prestam:/Só sabem roubar...”. Pouco depois, Robert Wilson, no seu livro “A Companhia de Estranhos”, colocava um dos seus personagens, numa conversa sobre o Professor, a dizer que Portugal presisava de um sacana de tempos a tempos para meter o país na ordem. Mais recentemente, o programa “Contra-Informação” teve um sketch em que os bonecos terminavam em animada cantoria, pedindo “um Salazar em cada esquina” para o Natal. E depois o próprio Mário Soares, alma parda da revolução abrilista, sobre o estado actual do país, sai-se com um “no Estado Novo é que era!”.
Salazar já se foi, e felizmente não vai voltar (nunca fui muito com o senhor Professor). Mas começo a pensar que um “sacana” talvez seja mesmo aquilo que estamos a precisar, e a julgar pelos ditos de alguns, aquilo que por andamos dissimuladamente a clamar.
Trovoada – sinto pena das pessoas que têm medo deste fenómeno atmosférico. É dos mais belos espectáculos que a Natureza nos pode oferecer sem nos causar grandes danos pessoais.
UCAL – nunca mais bebi UCAL desde que lhe vi ser adicionada uma Stout.
Vermelhos – como é que o Partido Comunista Português pode progredir, e evitar o seu (quase inevitável) obscurecimento? Este Jerónimo de Sousa até pode ser boa pessoa e ter ideias interessantes e diferentes. Mas, se fecharmos os olhos, continuamos a ouvir uma sucessão de líderes comunistas que, desde Stalin, falam da mesma forma e com o mesmo timbre. Assim, parece que a mensagem nunca muda.
Wellington, Arthur Wellesley, Duque de – irlandês de nascimento, inglês por força das circunstâncias, terá também sido português por paixão. O bom Duque apaixonou-se pelo nosso país, pelo seu povo, que guiou por grandes vitórias durante a Guerra Peninsular contra os invasores de Napoleão. A sua actividade militar e política não lhe permitiu ficar muito tempo connosco, mas Portugal esteve sempre no seu pensamento. Conservador inverterado, o seu interesse pelo futuro de Portugal era tão grande, que arriscou a sua carreira política e perdeu, sendo forçado pelo Parlamento a demitir-se de Primeiro-Ministro Britânico em 1830, sob uma chuva de insultos, por ter violado a neutralidade inglesa durante a Revolução Liberal, apoiando claramente D.Miguel, e tentando perturbar as movimentações dos liberais. Muitos portugueses seriam incapazes de tal sacrifício.
Xadrez – o rei dos jogos de tabuleiro. Paciência, visão, estratégia e frieza são essenciais neste jogo que estimula a inteligência como nenhum outro. E não é preciso ser um Kasparov ou um Bobby Fisher para ter gozo em jogar. Basta saber as regras básicas.
Yorkshire – desta região inglesa saíram os Mostly Autumn, a minha nova tara. Conjunto musical britânico, praticam um Rock Progressivo de inspiração floydiana, mas com bastante influência de música céltica e folk, com uns ocasionais toques de Deep Purple. A conhecer.
Zumbido – som irritante que não me sai da cabeça, após ter feito uma noitada a escrever este “Dicionário Atónico”. Isto afinal custa, não sei se repetirei a experiência tão depressa. Por agora voltarei aos “posts” mais sucintos. Até à próxima.